PARCEIROS


Educação  Agroflorestal: Construindo junto o conhecimento

 

por Fabiana Mongeli Peneireiro

 

“Gente é pra brilhar, gente é criativa, gente é curiosa, gente é especial, cada um é um, natureza ímpar, e educação é para ampliar os horizontes, dar mais liberdade, fazer as asas crescerem, os olhos crescerem, todos os sentidos se desenvolverem, educação é pra gente viver melhor.”

 

Falar sobre educação agroflorestal é ver a chamada extensão rural sob um prisma completamente diferente. É difundir agrofloresta, agroecologia, contextualizada na realidade dos agricultores que são vistos como agentes de mudança, atores sociais reflexivos, com muita experiência e que, lendo o mundo ao seu redor, são capazes de construir novos conhecimentos a partir daqueles que já carregam consigo, frutos de sua trajetória de vida que se mesclam com conhecimentos dos outros e que fazem emergir novas visões ou compreensões a partir da reflexão ao confrontar idéias e conceitos.

 

A intenção aqui, mais do que palestrar, de expor idéias, é compartilhar experiências e gerar um momento rico de troca, de criação de novas possibilidades para que possamos inovar, sermos criativos, para que cada um que está aqui presente saia daqui mais rico, com mais figurinhas para trocar. Temos aqui o desafio de aliarmos o conhecimento científico e o conhecimento empírico, pesquisador acadêmico e agricultor-pesquisador, envolver homens, mulheres, jovens, velhos e crianças. Um envolvimento efetivo de agricultores(as) no processo de reflexão/conscientização/construção de conhecimentos/mudança de atitude e

da ação cotidiana.

 

Nós, ao agirmos como extensionistas na perspectiva de educadores, podemos contribuir para a transformação da realidade ao promovermos esse processo a partir de um diálogo franco e aberto com os que verdadeiramente agem e transformam a paisagem, produzem alimentos e mantém suas famílias com o fruto do trabalho na terra e da relação com a natureza.

 

Falo aqui de educação agroflorestal e não extensão agroflorestal porque “é tarefa do educador problematizar aos educandos o conteúdo, é desafiar os camponeses, cada vez mais, no sentido de que penetrem na significação do conteúdo temático diante do qual se acham, estimulá-los a compreender e a interagir com o conhecimento a ser adquirido, e não a de dissertar sobre ele, de dá-lo, de estendê-lo, de entregá-lo, como se tratasse de algo já feito, elaborado, acabado, terminado”. A primeira concepção é busca constante de libertação e a segunda, é instrumento de dominação[1].

 

“Para uns, educação é transferência de conhecimentos e consiste em estendê-los aos educandos passivos, com o que impedem nestes últimos o desenvolvimento da postura ativa e co-participante, característica de quem conhece. Esta falsa concepção da educação, que se baseia no depósito de informes nos educandos, constitui, no fundo, um obstáculo à transformação.”[2]

 

O educador, como que dissipa as brumas, retira o véu que encobre os olhos do educando. Se o aprendizado é feito a partir de uma situação existencial, uma situação, por isso mesmo, vivida pelos camponeses que, enquanto a viviam, ou não a admiravam ou, se a admiravam faziam-no através de um mero dar-se conta da situação, o desvendar, o olhar sobre outra perspectiva, tomando consciência da situação lhes leva a uma sensação de surpresa e conquista. “Eu já sabia disso, eu só não sabia que sabia”[3]. Para Paulo Freire, “na admiração do mundo admirado, os homens tomam conhecimento da forma como estavam conhecendo, e assim reconhecem a necessidade de conhecer melhor.”

 

Contribuir para que as ações nossas e dos(as) agricultores(as) com quem trabalhamos possam vir a ser realmente sustentáveis, em todos os sentidos, é gratificante, e, mais ainda, se for numa perspectiva libertária. O papel do educador é propiciar oportunidades para que o educando leia, interprete o mundo, reflita sobre ele e sobre o estar nele, pondere e esboce possibilidades de agir sobre  ele, de forma consciente. É bom aproveitarmos as diferenças. Elas enriquecem, dinamizam. “Só aprende quem tem algo pra ensinar e só ensina quem está aberto para aprender.”[4]

 

 

1 Engenheira Agrônoma, MSC em Ciências Florestais.

Endereço: Gerência de Educação Profissional/SEE Acre – Av. Nações Unidas, 1068. Bosque – Rio Branco/AC 69909-720

fmpeneir@hotmail.com

 


 

[1] Paulo Freire, 1977.

[2] Paulo Freire, 1977.

[3] Frase dita por um agricultor do Assentamento Humaitá, Porto Acre, durante curso de capacitação a partir da metodologia de educação agroflorestal do Arboreto/PZ/UFAC.

[4] Paulo Freire, 1977.